Monday, January 23, 2012

O DESGRAÇADO

Cavaco voltou a apresentar-se como um desgraçado. Não ganha que lhe baste, disse. Um coro de protestos (da gente que só fala em coro), veio dizer que ali não via desgraça nenhuma. Se alguém tivesse visto essa desgraça fundamental para a vida tugárica, a criatura não teria talvez sido eleita. Continuam a não ver a desgraça. E todavia o desgraçado aí está. Coisa mais crua é impossível. Como não raros desgraçados, também este revela estranhas ideias sobre as relações causa-efeito da sua desgraça. Tanto dá. Que é um desgraçado, isso é inequívoco. A causa será porventura o fraccionamento que o fez Cavaco. A àrvore morta. A inutilidade dos gravetos. Dos cavacos. Apodrecidos pelos musgos e devorados pelos pequenos insectos. A desgraça. Cura? Não há. Ninguém pode reconstruir a árvore. reitegrar o cavaco na seiva vivificante, regenerar-lhe as fibras, devolve-lo à proporção originária da existência. Cavaco é o que é. Um desgraçado. Nisso ele tem razão. E ninguém mais do que ele tem, nisso, essa forte razão. Os críticos vêm dizer que não. Não é um desgraçado. Não sabe o que é um desgraçado. Mas que estúpido espírito de contradição. Outros lamentam. Porque Cavaco é um simbolo. Claro que é um simbolo. Foi-o. É-o. E se-lo-á. Um simbolo. Claramente. E um simbolo tremendo. Um desgraçado, também. 

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