Tuesday, January 4, 2011

QUERER E CRER: O BALANÇO DO ANO


O ano de 2010 ficou marcado pelo suicídio da estupidez. Mas o caracter suicidário da estupidez não é uma novidade. Assim foi, em todo o caso. A estupidez matou-se várias vezes ao longo do ano. Desde o despenhamento de Lech Kaczynski e dos noventa dignitários polacos, ao caso WikiLeaks. Desde a falência do Estado da Califórnia à crise Grega. E a crise global vem sublinhando a estupidez – também ela letal - da alienação de inúmeros vectores da produção industrial nos processos de deslocalização que privilegiaram a Ásia e agora revelam, em toda a amplitude, a derrota estratégica como factura das medíocres vitórias tácticas visadas. Na tugária, recorda-se o único momento de reflexão pessoal de José Sócrates - que ninguém notou no seu terrível significado – quando este dizia, coitado, que os dirigentes políticos acentuadamente marcados pela erudição literária são latino-americanos e não europeus. Uma Europa entregue às bestas, portanto, como se sabia. No testemunho de uma besta, segundo tudo indica. E uma América Latina que reflecte seja no combate político que a atravessa, seja quanto ao futuro que pretende, guiando-se, evidentemente, pelas Humanidades. Como toda a gente que tem de debater tais coisas, aliás. As questões fundamentais, realmente, estão nos sistemas de convicções que condicionam todas as decisões. Além dos impulsos imediatamente animais, não estamos a ver domínio onde seja possível querer sem crer. (Digam o que disserem os pretensos engenheiros tugas da pretensa independente tuga). À escala global, o execrando Ratzinger continua às voltas com a sua porno estrutura, alegadamente eclesiástica. Em torno da teologia moral do preservativo. Tratando da beatificação de Voitila, grande protector do Padre Maciel e canonizador de genocidas. Multiplica os dislates. Mas vem sendo menos mal sucedido na vertente financeira da coisa. Porque continua a evitar pagar o que deve em sede indemnizatória. E o banco daquilo continua a fazer lavagens de dinheiro e, portanto, a desempenhar importante papel nas acções de sombra (cobertas pelas razões de estados tão pouco razoáveis) onde se libertam fundos (sem controlo estatal) para as mais estranhas operações (sem controlo parlamentar). Por algum motivo no Afeganistão sob precária ocupação militar da OTAN se multiplica a produção e comercialização do ópio. No plano da tugária o ano correu na costumada compilação – sempre desinteressante - de ignomínias e abandonos. Podemos destacar o asqueroso servilismo de Santos Ferreira do BCP, oferecendo à CIA a sua radical falta de qualquer verticalidade (na qual a CIA nenhum interesse viu), por via de uma perspectiva de negócios com o Irão que não chegou a concretizar-se. O Amado dos Negócios Estrangeiros revelou-se também o que toda a gente da sua laia não consegue deixar de ser: um sopeiro. E porque o semelhante gera o semelhante, os pseudântropoi nem como fiascos revelam interesse. Na campanha eleitoral para as presidenciais destaca-se o execrando Cavaco – veneranda figura de arrepiante parolo, tão característica da chamada “política portuguesa” – mas desta vez a criatura não reivindica a sua importância na construção da “Califórnia da Europa” de que tanto se orgulhava há cinco anos. Aqui está a tugária. Califórnia da Europa, realmente. Mas nem sequer europeia pela mentalidade, ou o Cavaco não poderia, tão simplesmente, existir desta forma. E por todo o lado – aqui também - o pretenso anonimato das grandes titularidades dos grandes interesses financeiros claudica na evidência das identidades dos indivíduos responsáveis pelos vários descalabros. E na, política como nas finanças, tudo se revela estar, afinal, a níveis excessivamente domésticos, excessivamente primários, excessivamente claros. Esta clareza é a grande aquisição da época. E será plausivelmente determinante na evolução próxima. Na tugária tudo será como sempre foi. Quando tudo depender da multidão em (justificada) fúria, ninguém haverá que coloque a multidão na dependência da palavra lúcida. Porque, justamente, a presença da literatura e das humanidades é nula. Na antecâmara das novas guilhotinas um tribunal popular dirá, desta vez com acerto, que a república não precisa de cavacos. O outro dissera com radical desacerto que a república não precisa de sábios. A república precisa de sábios, sim. Mas aqui só conseguimos ver labregos ostentando togas e becas usurpadas. Como Cavaco. E os cavacos travestidos de gente ajuizada realmente não fazem - e nunca fizeram - falta nenhuma. O mundo teria sido bem melhor sem eles.

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