Saturday, August 13, 2011

A REBELIÃO


O Governo inglês decretou em Novembro do ano passado cortes na educação que significam propinas anuais de 14 mil dólares por estudante, no que respeita ao ensino superior. Dada a referência das despesas militares do Reino Unido, a ideia é absurda. Para falar apenas no fiasco afegão, gastaram ali trinta biliões de  dólares. E de modo mais nocivo que inútil. (A direcção política e os comandos operacionais são idotas dispendiosos, porque um décimo dessa verba teria bastando para que as facções  no terreno se tivessem morto umas às outras com bem maior eficácia e ainda assim a licitude da intervenção seria recusável). Os estudantes protestaram (e protestam ainda). Cheios de razão. A fixação de tais propinas em clima de recessão corresponde a uma perspectiva política escandalosa no que ao sacrifício arbitrário de uma geração inteira diz respeito. É inaceitável sacrificar uma geração inteira (no que diz respeito à formação e ao futuro próximo) por razões meramente conjunturais. Idiotas que fazem isto, não sabem o que andam a fazer. Fazer da Inglaterra um Chile, onde a inteira classe média está excluída do Ensino Superior – e só lá consegue por os filhos à custa de empréstimos bancários - é uma loucura. Perfeita loucura. Protesto legítimo, portanto. Na tugária já há estabelecimentos públicos a cobrarem 25 mil euros por propinas de post graduação (!)  e a exigirem 3000 euros pagos à cabeça para inscrição numa licenciatura (!).  Protesto legítimo, portanto. E rebelião óbvia em caso de insucesso. A rebelião é legítima porque a situação reveste urgência que não permite esperar pelas próximas eleições… Quando vierem as próximas eleições, já dois terços dos rapazes e raparigas estão fora do aparelho escolar. E o dificilmente remediável estará consumado. Não pode ser. A rebelião é a providência cautelar que resta em quanto respeita à vida política, porque ninguém aqui preservou os mecanismos – eficazes, tradicionais e ocidentais, velhos como a Velha Roma – para travar imediatamente e politicamente o que tem de travar-se imediatamente). Os Tribunais não podem razoavelmente ocupar-se da violação de pactos políticos face aos quais o Estado é ente subordinado. O tribunal comum não pode exigir a subordinação do Governo ao “Direito Político”, porque isso está fora da sua esfera de poderes. (Há separação de poderes). Ora, nada mais havendo, é a rebelião, portanto. Evidentemente. Em Santiago do Chile como em Londres. Por estes motivos, ou por motivos de análoga importância política e social. (Ainda por exemplo) também não se pode esperar pelas próximas eleições para discutir se as unidades clínicas de cirurgia cardiovascular ou de tratamento oncológico devem manter-se abertas ou não, porque nessa altura terão morrido aqueles de cujas vidas se trata. Há coisas que são o que são. E são assim. Não se pode esperar pelas próximas eleições para discutir se alguém tem, ou não, o direito de não ver os seus filhos com fome diante de supermercados com farto abastecimento, mas onde não se pode ir porque o desemprego não deixa. Nas próximas eleições os miúdos terão morrido. É basicamente este o raciocínio. E é bastante jurídico, segundo tudo indica. Quem lhe opuser “a ordem” ilegaliza “a ordem”. Parece bastante linear. Olhar para isto do ponto de vista da esquerda ou da direita é desajustado. Essas clivagens só fazem sentido depois das coisas essenciais estarem resolvidas e assentes. Essas coisas essenciais resolvidas e assentes é que são “a ordem”. Não pode haver ordem contra isso. O Estado é o primeiro instrumento da solidariedade. É meramente instrumental. Se não serve, obriga-se a que sirva por ter sido feito para servir. Ou deita-se fora. E faz-se outro. Ou faz-se outra coisa. Nada há aqui que seja complicado. É tudo perfeitamente linear. Tanto dá que seja em Londres, em Atenas, em Santiago do Chile, no Cairo, ou em Lisboa. É simplesmente assim. A direita e a esquerda são esteticismos que só faz sentido discutir depois da comida estar nas mesas, os professores nas escolas, os médicos disponíveis nos hospitais, depois disso podem discutir-se as questões estéticas da vida pública. (Como os modos de reconhecimento dos méritos, as honras públicas que lhes são devidas, as diferenças salariais que devem traduzi-las, a liberdade de iniciativa empresarial e os limites do controlo público, etc). Mas quando estão (e enquanto estiverem) em causa questões tão básicas, a única coisa que é preciso saber é se o Estado faz o que foi feito para fazer, ou se recusa a obediência aos seus deveres primeiros. Se recusa, nem há o que discutir. É tirar os anormais dali antes que morra gente, ou antes que morra mais gente. Porque são anormais, realmente e muitas vezes. Olha-se para as trombas do Cameron sob pressão, ou para as do ministro das finanças da tugária e não pode haver dúvidas quanto ao gritante deficit de normalidade. O desgraçado do Gaspar nem falar consegue, coitado. Como o Cavaco. Escolhem-nos assim e se calhar por isso. Mas a Palavra (não é?) é indesmentível fronteira de humanidade. Estes desgraçados não existem. Cameron quer fazer crer que se trata de simples  "motins". Este Sábado deixou claro que se trata de bem mais do que isso. Aliás em Dezembro já lhe tinham dito que o pior ainda está para vir. E está. Os simbolos "consensuais" deixaram de o ser. São já simbolos de outra coisa.  Outra vez se sublinha que o controlo dos media serve apenas e agora para desacreditar os media e já não para controlar a informação. Esta é uma grande novidade. Cameron volta-se contra a novidade dizendo que são  as possibilidades da "net" que explicam os "motins". A net possibilita formas de coordenação e planeamento importantes. Mas só se coordena o que já existe no terreno. Só se planeia com o que já existe. A net não gerou os "motins". A cretinice das "medidas de austeridade" em favor dos "banksters" é que gerou situações intoleráveis. E não apenas em Inglaterra. Houve até um estado que se portou à altura das circunstâncias: a Islândia. Quem se opõe aos protestos não tem nenhum razão. O FMI e os seus serventuários não têm nenhuma razão. Isto assente, vamos ao que interessa.        

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